Correspondência com Ruy Castro

Nomes de guerra (Ruy Castro)
Tirado de “Crônicas para ler na Escola”.Seleção de Sylvia Cyntrão. Editora Objetiva, 2010
Esta coluna, na segunda-feira, exumou uma quantidade de nomes exóticos com que alguns brasileiros se assinavam a sério, com registro em cartório, nos anos 60. Um deles, Um Dois Três de Oliveira Quatro, ficou tão famoso que lhe ser apresentado seria como apertar a mão do curupira ou do saci-pererê. Mas não se sabe de quem tivesse tido a honra.

Mais fácil é conviver com os nomes que hoje infestam os nossos times de futebol: Joilson, Joelson, Jadilson, Kleberson, Vanderson, Ibson, Athirson, Edilson, Denilson, Lenilson, Ademilson, Valdson, Fredson, Liedson, Tailson, Revson, Glelberson e, naturalmente, Richarlyson. Para não falar em Rever, Mairon, Kerlon, Weldon, Cleilton, Rogelio, Thiego, Maicon, Maicossuel e Leyrielton.

Quando me lembro de que passei a vida na ilegalidade por me chamar Ruy – e não Rui, como rezava a reforma ortográfica que, antes de eu nascer, banira da língua portuguesa os yy, ww e kk –, penso em como os doutos do vernáculo legislam no vazio. Pois, pelo menos para isto servirá a nova reforma para restabelecer os kk, ww e yy. Afinal, já passou a valer tudo mesmo, em matéria de língua.

Os políticos, aliás, são partidários do “laissez-faire”. Eis como se apresentam alguns candidatos a vereador no Rio: Anderson Antimultas, Antonio Vieira É Amigo, Barriga de Açougue, Carlinhos o Seu Querido, Cícero do Jegue, Dr. Edson da Creatinina, Edvaldo Popular Baixinho, João Pangaré, Jorge Baixa Renda, Lugon O Bom Malandro, Maria Chupetinha, Pantera Vai Q. Vem, Rodrigo Pai dos Quadrigêmeos, Wilson Xodó da Vovó.

Você dirá que são apenas nomes de guerra. Sim, e de vereadores. Mas nada impede que logo se tornem deputados, senadores, ministros e, do jeito que a banda toca, coisa até mais alta.

Carta a Ruy Castro:

Prezado Ruy Castro,

Tenho comigo seu livro “Crônicas para ler na escola”, em que, no texto “Nomes de Guerra”, meu nome é mencionado.
Conheço e admiro seu trabalho, principalmente as biografias que nos descortinaram o mundo de Carmen Miranda, de Garrincha e de Nelson Rodrigues, e estabeleceram um padrão para esse tipo de trabalho no Brasil. Ruy Castro é um selo.
Imagino o árduo trabalho exigido para a pesquisa e a redação desses livros. Tarefa cumprida. Registro, ainda, seu minucioso relato em “Chega de Saudade” e ,claro, seu livro sobre o nosso querido Mengão.
Venho fazer um convite para que você conheça a creatinina e sua importância para a saúde dos rins. Foi para divulgar esse marcador da função renal que me candidatei a vereador e escolhi o nome “Dr. Edison da Creatinina”.
Sou nefrologista há 30 anos, tenho Mestrado pela UERJ e Doutorado pela EPM. Nesses tantos anos como nefrologista da rede pública – não tenho consultório particular – tenho constatado que a prevenção, ou seja, o controle dos índices da creatinina – pode impedir que os renais crônicos cheguem à diálise e ao transplante.
Um amigo me convenceu: só haverá visibilidade para o problema se você se candidatar a vereador. Foi o que fiz; candidatei-me pelo PV, com o nome de “Dr. Edison da Creatinina”, tendo recebido 2.573 votos, garantindo a posição de suplente.
Com a eleição de Alfredo Sirkis para deputado federal e a de Aspásia Camargo para deputada estadual, assumirei uma das vagas na Câmara dos Vereadores, praticamente concretizando o que profetiza o seu último parágrafo – “nada impede que logo se tornem deputados, senadores….”
Na crônica citada, vejo meu nome entre o de outros candidatos, como políticos “partidários do laissez-faire”, em francês “attitude qui consiste à ne pas intervenir”. Não é assim que pretendo pautar meu mandato.
Venho chamá-lo a observar meu caráter, meu comportamento e minhas atitudes, que seguem os princípios que pautei para minha vida como cidadão, médico e pai. E eles vão comigo para o Palácio Pedro Ernesto, ou para qualquer outro lugar.
Acho que consegui chamar atenção para a creatinina; quero agora colocar em pauta o problema dos renais e dos transplantados, sem esquecer as demais questões que afetam os habitantes do Rio de Janeiro e a própria cidade.
Faço questão de presenteá-lo com a camiseta que lembra a importância da dosagem da creatinina. Você sabe qual o seu índice? Fale com seu médico.
Não tenho como dar uma camisa a cada pessoa para lembrar a necessidade do exame – simples e barato. Quem sabe você não me ajuda, usando a camisa nos passeios pelo calçadão?
Espero ter esclarecido que, embora você me tenha comparado a outros candidatos de nomes “exóticos”, tenho um objetivo e, sobretudo, uma esperança: divulgar a importância da creatinina, colaborar para que a população tenha mais saúde, uma vida melhor. Quero poder contribuir, somar esforços, multiplicar o número de exames, diminuir a incidência de doenças.
Meu gabinete estará à sua disposição.
Dr. Edison da Creatinina

From: Ruy Castro
Sent: Thursday, December 23, 2010 11:31 AM
To: Dr Edison da Creatinina
Subject: Re: Ruy Castro – Achei meu nome no seu livro

Prezado Dr. Edison,
De fato, depois de ler sua carta — e de recolher minha própria cara no chão —, só me resta pedir-lhe desculpas se lhe causei algum incômodo, além do fato de se ver misturado com pseudônimos menos ilustres.

O trabalho de um colunista, no calor de uma campanha eleitoral, não permite o mesmo nível de exigência que o do biógrafo, que tem todo o tempo do mundo para trabalhar. Donde, na pressa de enviar a coluna a tempo para o fechamento, com frequência cometemos injustiças.

Se soubesse que sua companheira de chapa era a nossa querida Aspásia, teria me empenhado em aprender mais a seu respeito. Parabéns pelo trabalho e pelo mandato!

Abraços e saudações rubro-negras.
Ruy

From: Dr Edison da Creatinina
Sent: Thursday, December 23, 2010 5:20 PM
To: marilena@centroin.com.br
Subject: Fw: Ruy Castro – Achei meu nome no seu livro

Prezado Ruy
Foi um prazer receber sua resposta e agradeço suas atenciosas palavras.
Como disse, sou Nefrologista há 33 anos e há uns 10 a Sociedade de Nefrologia acordou para e epidemia da doença renal crônica.
Todos os dias me pergunto como um exame tão fácil e barato de ser feito é desconhecido da quase totalidade da população leiga e, acredite, da grande maioria dos médicos deste país e em países como USA, França e Inglaterra. Esta é a razão do chamado late referral, ou seja, quando o paciente nos é encaminhado não há mais nada a fazer a não ser diálise ou transplante. Podemos com grande chance diminuir a progressão da doença sabendo o valor da creatinina, mas para isso temos que popularizá-la.
Bem fico por aqui sugerindo que dê uma passeio no meu site www.dredisondacreatinina.com.br
A partir de fevereiro, estaremos lá na Câmara lutando pela saúde dos nossos cidadãos e pela melhoria da qualidade de vida do povo fluminense. (flamengos, botafoguenses, vascaínos… também).
Bom Natal e Feliz Ano Novo!

Dr. Edison da Creatinina

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