Carta à Revista Veja

A revista Veja, em 2006, fez uma reportagem de capa intitulada “Exames que podem salvar sua vida”. Falava dos mais sofisticados, mas não falava do exame de urina e da creatinina. Em função do início da nossa luta, três nefrologistas famosos do Brasil escreveram a seguinte carta:

Prezado Senhor Redator,

É consenso entre os nefrologistas (médicos especialistas em doenças do rins) que a Humanidade enfrenta hoje uma verdadeira epidemia de doença renal crônica, um mal silencioso, porém devastador. Embora o tema tenha recebido pouca cobertura jornalística, tendo sido, por exemplo, ignorado por VEJA na reportagem publicada em sua edição 1952, os números são assustadores. Estima-se que, no Brasil, mais de 5 milhões de adultos sofram desse mal, muitas vezes sem o saber, uma vez que os sintomas mais evidentes da doença podem demorar décadas para se manifestar. Todos os anos, quase 20.000 pessoas, dentre esse imenso contingente, alcançam o estágio mais avançado da doença, passando a requerer, para sua sobrevivência, a instauração de tratamentos ditos “de substituição renal”: a diálise crônica ou o transplante renal. São procedimentos caríssimos, cujo ônus cabe quase sempre ao Governo. Os custos humanos, sociais e econômicos impostos por esses tratamentos são motivo de preocupação crescente em todo o mundo, inclusive nos países mais desenvolvidos. Além desse custo direto, a doença renal crônica, mesmo em suas fases iniciais, acarreta, como o diabetes, um risco elevado de morte por doença cardiovascular. O reconhecimento da doença renal crônica deve ser o mais precoce possível, para que a progressão às fases mais avançadas possa ser> detida ou ao menos retardada. Para tanto, três procedimentos simples e> baratos, embora extremamente valiosos, são adotados em todo o mundo: a medida periódica da pressão arterial, mencionada superficialmente na reportagem, a determinação da presença de proteínas na urina (proteinúria) e a dosagem no sangue de um composto ainda pouco conhecido do público: a creatinina. VEJA perdeu uma excelente oportunidade de alertar seus leitores para essa grave ameaça, considerada um dos grandes desafios a serem enfrentados pela Medicina do século XXI.

Assinado:

Prof. Dr. Pedro A. Gordan, Presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Professor Associado de Nefrologia da Universidade de Londrina;

Prof. Dr. Jocemir Ronaldo Lugon, Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Professor Titular da Universidade Federal Fluminense;

Prof. Dr. Roberto Zatz, Professor Titular de Nefrologia da FMUSP de São Paulo.

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